Crise e recuperação: A conjuntura no início de 2012

A crise europeia se acomodou no início de 2012, após provocar grande incerteza no final de 2011. Alguns eventos contribuíram: a adesão de mais de 90% dos bancos à renegociação da dívida soberana da Grécia; o avanço do alinhamento macroeconômico na Comunidade Europeia, com introdução de metas fiscais automaticamente ajustáveis.

A confiança na saída da crise melhorou, embora persista cenário de lenta recuperação e de intensos movimentos políticos para renovação de governos e da própria estratégia de disciplina fiscal. Os riscos latentes ainda são importantes, advindos de possível reestruturação da dívida da Espanha, podendo alcançar a Itália.

A economia dos EUA, por seu turno, animou os mercados em alguns momentos, com sinais de recuperação de empregos. Ainda assim, o Federal Reserve (FED) mantém comunicação de cautela, mantendo a possibilidade de uma terceira injeção de liquidez no sistema financeiro (QE3) em caso de arrefecimento da crise na Europa. Enquanto os riscos não se concretizam, o FED migra para o regime de metas de inflação, antevendo consequências de uma recuperação com liquidez abundante.

A China surpreendeu com o anúncio de mudança gradual na direção do crescimento para o mercado doméstico, maior flutuação do câmbio e controle da inflação. A estimativa de crescimento de longo prazo irá convergir para taxas mais baixas (8% ao ano) o que reduzirá pressões de alta sobre preços de commodities.

No Brasil, o quadro externo repercute na queda das exportações, especialmente de minério de ferro. Além de problemas climáticos nas principais jazidas produtoras (Minas Gerais), há ainda a influência da menor demanda e da acomodação nos preços internacionais. Mas o principal determinante do nível de atividade têm sido os efeitos defasados do aperto monetário realizado até meados de 2011.

Assim como a expansão de apenas 0,8% do PIB entre o 1º e o 4º trimestres de 2011, o 1º trimestre de 2012 deverá sustentar variação próxima a zero, conforme indicador antecedente do Banco Central, o IBC-Br. Com a acomodação do crescimento, menores pressões dos preços de commodities, e sem a entressafra da cana-de-açúcar, a inflação iniciou convergência de 6,5% em 2011 para 5,2% até março, podendo alcançar a meta (4,5%) no fim do ano.

Assim, a recuperação deve ganhar impulso no segundo semestre, por conta do relaxamento monetário – redução da Selic de 12,5% para 9% entre agosto/11 e abril/12 – a expectativa de recuperação na China e EUA e menor instabilidade na zona do euro. No cenário doméstico, contam os impulsos do aumento do salário mínimo (14%) e desonerações para micro e pequenos empreendedores.

A economia do Espírito Santo repercute efeitos combinados das menores exportações de minério e da expansão do mercado doméstico. Assim, a produção industrial perdeu ritmo desde meados do ano passado (queda de -5,1% entre jun/11 e fev/12), mas a geração líquida de empregos formais, superior a 2.500/mês em média, contribuiu para sustentar o varejo (+2,5%).

Como perspectiva, não se pode negligenciar os efeitos da mudança no ICMS de importados, que retira a viabilidade do sistema Fundap para o Espírito Santo a partir de 2013. Mais do que o impacto fiscal, afetará o comércio exterior e atividades relacionadas, que respondem por 7% do PIB estadual.

Ana Paula Vescovi é economista, assessora no Senado Federal e vice-presidente do Ibef-ES

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