Tecnologia e colaboração coletiva formam as cidades inteligentes do futuro

cidades inteligentes
Foto: Jackson Gonçalves

Saber explorar o avanço da computação e os dados fornecidos pelos cidadãos em meios digitais são caminhos para transformar o ambiente urbano no século XXI.

De que uma cidade precisa para ser considerada inteligente? Saber utilizar a tecnologia à disposição é um dos caminhos. Outra forma é conseguir aproveitar os dados fornecidos pelos cidadãos, nos meios digitais, para entender as necessidades da população. Assim, como desenvolver o meio urbano de forma distribuída, sem um centro específico.

Todos esses desafios de modernização e inovação capazes de tornar as cidades inteligentes são apontados pelo arquiteto e urbanista paulista Caio Vassão, que pesquisa o diálogo entre as novas tecnologias e a conformação do ambiente urbano contemporâneo.

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Foto: Jackson Gonçalves

“Para a antropologia, toda cidade é inteligente, porque é capaz de se organizar por meio da inteligência coletiva. O computador entra para acelerar esse processo, facilitando a forma de integração e vinculação de diversas mentes individuais em uma inteligência coletiva”, destaca Vassão.

O arquiteto afirma que um dos facilitadores para tornar as cidades inteligentes é a popularização da tecnologia digital, que ficou tão barata e disponível que vem sendo usada para tudo. Graças a esse avanço, é possível hoje oferecer serviços com maior eficiência para a população. E criam-se novos hábitos digitais de mobilidade urbana.

“O surgimento de aplicativos para smartphones voltados a serviços de mobilidade, como Über e Cabify, permite, por exemplo, que a garotada possa se deslocar pela cidade, ocupando novos lugares, antes considerados distantes”, aponta o especialista.

Ainda graças ao celular, os cidadãos passam a ser uma fonte ininterrupta de dados que podem ser relevantes para a gestão pública.

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Foto: Jackson Gonçalves

“A tecnologia digital transforma todo e qualquer objeto a nossa volta em uma estação de produção de dados. O seu celular conta quantas passadas você deu, para onde foi, quanto tempo ficou nesse lugar. Isso faz com que as cidades se tornem uma grande fazenda de produção de dados. O desafio será saber fazer a mineração dessas informações para usá-las de forma eficiente na administração pública”, considera Vassão.

Um dos dispositivos que garantem esse fornecimento de dados é o identificador de radiofrequência. Essa tecnologia do tipo IOT (Internet das Coisas) está presente, por exemplo, nas etiquetas usadas em livros, roupas, CDs, além do transponder do avião e das tags colocadas em carros para pagamento automático de pedágio.

Nas residências, a tecnologia também está presente na chamada “domótica”, termo resultante da junção da palavra latina “Domus” (casa) com “Robótica” (controle automatizado de algo). A automação doméstica permite o controle de iluminação, ventilação, climatização e segurança de uma casa via IOT.

De acordo com Vassão, a próxima escala da utilização desse sistema é nas cidades. E uma das formas será por meio dos carros autônomos. “O carro é convertido em um robô e tem a direção automatizada. Muita gente pensa que isso vai demorar a chegar. Mas é bom lembrar que a parte mais barata do carro continua sendo o computador. Então, não duvido que, até 2020, já existam veículos autônomos circulando em Vitória. Dá para prever isso baseado na banalização da tecnologia nos últimos 20 anos”, assegura o arquiteto.

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Foto: Jackson Gonçalves

A previsão de Vassão é que, com a automatização, diminuirá a necessidade de as pessoas terem carros e a frota total tende a cair. Ele lembra que, em algumas cidades, nem 10% dos veículos estão em circulação: 90% deles ficam estacionados em algum lugar. “Aço, couro e plástico parado em uma garagem. Não faz sentido”, considera.

Com o meio urbano cada vez mais inundado pela tecnologia digital, o arquiteto vê a prevalência de um “sistema distribuído” nas cidades inteligentes, ou seja, sem centros de comando ou regiões de maior importância.

“Na cidade distribuída, o centro está em qualquer lugar. Ele emerge”, observa o arquiteto. “De onde vai vir a próxima inovação que vai mudar tudo? Tradicionalmente pensaríamos nos grandes centros, como Vale do Silício, Nova York ou Berlim. Mas pode ser que um menino da periferia de Vila Velha faça um curso de computação, comece a se interessar por isso, assista a 30 mil tutoriais no Youtube e, daqui a um mês, proponha uma ideia que vai revolucionar a maneira de comercializar um determinado produto no ambiente digital”.

Caberá, então, ao poder público deixar de lado o papel de “soberano” para se tornar um “facilitador”, capaz de moderar processos realizados pelos cidadãos.

“Vem daí o urbanismo colaborativo, que deixará de ser uma prática desenvolvida por grandes especialistas, centralizada em um órgão público ou privado, para se tornar um processo deliberativo distribuído na sociedade”, garante Vassão. “Essa será uma nova maneira de se pensar a cidade no futuro”.

Para que isso se torne realidade, o arquiteto propõe dois caminhos. O primeiro deles é fomentar o ecossistema de inovação local, por meio de atividades, como hackatons, desafios, startups etc. O outro é preparar o público para o futuro, investindo na “literacia digital”, ou seja, fazendo as pessoas passarem a entender de programação e linguagem de computação.

“No século XIV, somente as classes nobres e o clero sabiam ler e escrever. Hoje em dia, se perguntarmos quem sabe programar, meia dúzia vai levantar a mão. Assim como a gente espera que a população inteira hoje saiba ler e escrever, daqui a 100 anos será a mesma coisa com programação: isso é literacia digital”, explica Vassão. “Não adianta usar o Facebook como se fosse TV. É preciso entender as possibilidades dessa ferramenta, que pode ser usada para deliberação pública, acesso ou instrução de informação”.

Essa forma de a comunidade projetar a si mesma, em um processo autodeliberativo de construção do espaço público é o metadesign. Quando uma cidade não é feita assim, de forma colaborativa, mas de maneira centralizada, na opinião de Vassão, tende a ser uma infraestrutura morta. O exemplo disso seria a Capital Federal do Brasil.

“Brasília, no primeiro mês em que foi inaugurada, não era uma cidade. Era só um monte de prédios. Os urbanistas mais críticos dizem que uma cidade precisa surgir organicamente: de pessoas e para pessoas”, ressalta o arquiteto. “Hoje em dia, depois de o plano-piloto ter sido reconfigurado pela vida das pessoas, Brasília pode ser considerada uma cidade. Antes era apenas uma maquete em tamanho real”.

Assim, na visão de Vassão, uma cidade inteligente nasce a partir de um pensamento coletivo, de uma articulação da comunidade por meio das tecnologias e das redes sociais, de forma que aquele ambiente seja feito por e para as pessoas.

Confira um trecho do evento VOS:

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