Brasil: múltiplas estratégias e baixo crescimento

Difícil conjuntura internacional e quadro adverso no sistema bancário brasileiro são alguns dos componentes que comprometem a saúde da economia. O artigo é de Ana Paula Vescovi


O segundo trimestre de 2012 foi marcado pelo aumento da incerteza global, com aprofundamento da crise europeia, desaceleração na China e instabilidade na economia dos EUA. O aumento da aversão ao risco se traduziu em queda dos preços de ativos e dos preços de commodities. Os prêmios de risco cobrados sobre títulos soberanos europeus – especialmente na Itália, Espanha e França – se elevaram, e os fluxos de comércio seguiram em retração.

A difícil conjuntura internacional esteve combinada com um quadro adverso no sistema bancário brasileiro. O endividamento das famílias subiu e trouxe junto a alta dos índices de inadimplência. A reação do governo foi lançar os Bancos Públicos – especialmente a Caixa Econômica Federal que não segue as regras de Basileia – numa concorrência pela redução dos spreads bancários e das taxas de juros cobradas aos tomadores finais. O COPOM, diante do cenário, manteve a redução da taxa SELIC, que passou de 9,75% (março) para 8% ao ano (julho).

Os esforços de distensão monetária e persistente desoneração tributária para bens de consumo duráveis desde o segundo trimestre de 2011 não foram suficientes para reaquecer a economia. O PIB brasileiro cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre e as expectativas indicam números entre 1,5% e 2,5% para o fechamento ao ano, o que se mantém inferior ao observado no ano passado e muito abaixo do crescimento esperado para as demais economias emergentes.

Entre os itens da demanda que explicam o baixo crescimento, o destaque vem dos investimentos. Neste quesito, além da crise, tornou-se mais claro e frequente o debate sobre o crescimento do Custo Brasil nos últimos anos, a baixa execução do PAC dentro do orçamento federal, e a retração dos fluxos líquidos de Investimentos Estrangeiros Diretos, com queda de 50% frente o mesmo período do ano anterior.

Mas, mesmo com cenário de atividade em acomodação, a inflação mantém-se em alta nos índices gerais, por conta da desvalorização do Real ocorrida no período. Os índices de preços ao consumidor recuaram com a queda de preços dos alimentos, mas as pressões no atacado e o possível aumento de combustíveis sugerem pouco espaço para novos recuos à frente.

Enfim, houve uma conjunção de fatores adversos nesse primeiro semestre, os quais suscitaram críticas à condução da política econômica, por conta das múltiplas estratégias de curto prazo. Alie-se a isso, a proliferação de greves no serviço público, os resultados ruins dos balanços de grandes empresas, estatais e privadas e, num cenário de baixo crescimento, o pouco espaço para acomodação de pressões e conflitos distributivos.

Para o Espírito Santo, restam as preocupações quanto à queda das exportações e preços de commodities, à exceção da celulose, e aos entraves impostos pela recente mudança (inconstitucional) da regra sobre o ICMS incidente sobre importações, a qual desmobiliza o setor de serviços portuários. As perdas fiscais poderão ficar ainda mais evidentes sobre os repasses da União sujeitos aos programas de desoneração tributária (FPE e FPM).

Tudo mais constante, o cenário persistirá com percepção de crise até o final do ano, pois ainda restam dúvidas quanto à efetividade das múltiplas medidas adotadas pelo governo. E também seguirá fortemente dependente dos humores externos. Resta observar as novas medidas de desoneração da energia e o impacto defasado da redução da SELIC.

Ana Paula Vescovi é economista, assessora no Senado Federal e vice-presidente do Ibef-ES

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