Avaliação de desempenho

Há um momento decisivo da gestão para o qual poucos líderes se preparam

A melhor hora para se avaliar o desempenho de um gestor não é durante sua atuação, mas assim que ela chega ao fim. Os próprios mecanismos institucionais corrigirão a rota profissional durante o voo, sendo que é em âmbito pessoal onde ocorrerá o mais importante balanço na vida de um líder: se tudo valeu a pena e qual a conta a pagar. O legado construído, inclusive em termos de relações, também tem peso quando se olha para trás. A avaliação irá apurar se o desempenho ultrapassou os limites. Não envolve culpa por inconsistências em planilhas; angústia com números não explicáveis ou humilhação diante de metas não alcançadas. Mas a paz na consciência e a saúde integral serão testadas no mais exigente tribunal exatamente quando o corpo estiver franqueado à maturidade.

Infelizmente, muitos líderes nem chegam a esse julgamento: morrem antes. O passivo emocional de seus balanços excede seu ativo orgânico. Hábitos nocivos massacram seus corpos e emoções durante a vida corporativa, com consequências irreversíveis. Alguns terminam vivos, mas sem consciência ou força vital para o desfrute, porque não priorizaram o essencial.

Um dos maiores erros de quem escorrega é ignorar a verdade de que “nada é para sempre”. Nem o corpo! Outro vacilo evitável é achar que algum desvio cometido, seja ético, seja moral, ficará impune. Independentemente de qual seja, a lei da ação e reação é implacável, porque há uma lógica subjacente ao cérebro que pressupõe o cultivo da integridade e da cooperação. Tudo o que a consciência considera errado é cobrado!

Pela mesma linha de equívocos segue a ingenuidade de crer que as pessoas não são importantes, independentemente de suas posições ou da natureza do contrato que as vincula à instituição. Não sendo o pensamento imaterial, o que se pensa tem influência sobre o ambiente. O senso comum costuma simplificar essa verdade em “energia”, para expressar a influência “invisível” que acontece entre pessoas.

O que se observa é que a qualidade do pensamento nos ambientes de trabalho tem  influência individual (para quem pensa ou a quem se destina o pensamento) e coletiva (se mais de um pensamento afim encontra frequência e intensidade em mesmo território).
Proporcionar experiências positivas às pessoas para que elas se inspirem a buscar sua plenitude contribui para o querer bem.

Se a paz é o que um líder deseja, sobretudo no período pós-gestão, o caminho não é massacrar pessoas em tempo de poder, mas ajudá-las a despertar para seu próprio bem-estar.

Uma conclusão óbvia para líderes e liderados é que não há caminho mais assertivo do que cultivar a maturidade do senso moral. Qualquer pessoa sabe, perfeitamente, o que é bom ou ruim. Ao preparar-se para encerrar um ciclo, é hora de ficar de frente para consigo. Lembrando que o próximo minuto de uma vida é sempre um mistério.

No ato do desligamento da vida profissional, o inexorável olhar para trás e para o espelho colocará à prova tanto o autoconhecimento quanto a riqueza real do legado construído. Nesse caso, é importante se preparar para a infalível justiça de um inevitável acerto de contas.

Sidemberg Rodrigues é professor em MBAs de Gestão & Sustentabilidade

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