Autolatina e as lições da história

Saiu, na semana passada, em conteúdo editorial da AutoEsporte, no Jornal Valor, uma matéria que descrevia sobre a trajetória da Autolatina no Brasil

Narrava sobre o compartilhamento de estrutura produtiva que VolksWagen e Ford fizeram nos anos 1980, e os modelos de criaram.  Na visão jornalística, a “parceria rendeu frutos até fora do país”. Mas na econômica, o buraco é mais embaixo. A Autolatina está longe do retrato descrito na matéria.

Ela foi um monopólio instituído pelos gênios da administração pública brasileira – negligenciando o papel da concorrência para gerar eficiência e competitividade em um mercado – que beneficiou duas grandes empresas de um poderoso oligopólio mundial, a indústria automobilística; que usaram o mercado brasileiro para desovar uma planta de produção esgotada de seus mercados dom – europeu e norte americano.

Com essa parceria conseguiram, pelo menos, 10 anos de lucro extra, a custo zero – já que não desembolsaram um centavo em investimentos; simplesmente transferiram para cá a esgotada planta de lá. Seus interesses eram fazer economia de escala e de escopo a custo zero. Para elas, claro!

Com essa parceria o Brasil conseguiu a façanha de beneficiar quem não precisava às custas de quem precisava – a economia brasileira e seus cidadãos/contribuintes.
Por que esse anacronismo foi possível? Devido aos habituais critérios equivocados de escolha do Governo Brasileiro.

Apesar do discurso ufanista-nacionalista em prol dos interesses do País, optou pelo caminho que garantisse, principalmente, benefícios e privilégios para os parceiros do poder. E a reserva de mercado que concedeu à Autolatina é a prova inconteste desse padrão de governo.

Mas, como tudo que começa errado, os desdobramentos dessa capciosa parceria também foram errados. O mercado cativo concedido à Autolatina, acabou tornando-se um obstáculo às metas de lucro de suas empresas.

Como a economia brasileira estava fechada, a demanda interna era insuficiente para absorver suas escalas de produção. Por outro lado, não podiam vender essa produção para o mercado externo porque o que produziam aqui, o resto do mundo não consumia mais.

Diante o subaproveitamento da capacidade instalada, passaram a cobrar, cada vez mais, incentivos do Estado para compensar a perda de rentabilidade; e a não fazer qualquer tipo de esforço para melhorar e ou diversificar sua produção.

Praticavam com o governo, a relação espúria da privatização dos lucros e socialização das perdas. Nos rastros dessa relação vieram a produção de veículos caros e de baixa qualidade – carroças.

Como não havia concorrentes, produziam o que queriam; e cobravam o preço que lhes era conveniente. Situação que foi levemente atenuada com a chegada da FIAT. Ainda que a fabricação de carroça permanecesse, inclusive na FIAT.

A Autolatina foi um obstáculo à disseminação de um ambiente propício à competição na economia brasileira. Competição é o que impulsiona a eficiência; que leva à competitividade.

Portanto, é parte da resposta de porque o Brasil se encontra, hoje, onde está.
Não gerou benefício que compensasse seu custo. Não vejo motivo para celebrar sua existência.

Arilda Teixeira – Economista e professora. da Fucape


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