Árduos degraus da evolução

O aprendizado do duro ano que termina pode ser um impulso para o novo

Em 2017, fundamentalismo e conservadorismo evidenciaram uma humanidade insegura e dividida. Xenofobia, separatismo e tentativas de dissidência marcaram o ano. A crise econômica diversificou sua face. Economias de menor estatura naufragaram. O desemprego generalizou-se, sendo que no Brasil milhões ficaram fora do mercado. O efeito dominó atingiu praticamente todos os setores, degradando a esfera social, com impactos diretos sobre as famílias, com aumento de pessoas em situação de rua, da economia informal e da violência, e ainda maior sobrecarga para os sistemas públicos.

A esfera ambiental em desequilíbrio testou os governos ao trazer de volta surtos de febre amarela, zika, dengue, entre outros que levaram suas vítimas à morte. Ao se tornar passiva por greves ou pela vulnerabilidade diante da complexidade social de um país saqueado pela corrupção, a polícia mostrou sua importância pelos transtornos causados por sua ausência/impotência. Isso comprovou que os núcleos tensionais periféricos nas cidades continuam latentes.

O mundo andava tão triste com o terrorismo sistêmico ou a insanidade individual, explodindo, metralhando e atropelando gente, além de personalidades polêmicas galgando topos políticos, que viu no lirismo uma oportunidade de fuga. Filmes como “A Bela e a Fera” e “La la Land” foram o sucesso da hora. Este último transtornou a festa do Oscar ao ser anunciado sem ter sido o vencedor. Na vida real, refugiados mantiveram-se afluentes de novos êxodos, multiplicando as dificuldades administrativas dos países onde aportaram.

“O mundo andava tão triste com o terrorismo sistêmico explodindo, metralhando e atropelando gente, além de personalidades polêmicas galgando topos políticos, que viu no lirismo uma oportunidade de fuga”

Massacres civis, trabalho escravo e muita crueldade individual reafirmaram, em 2017, que os Direitos Humanos ainda não saíram do papel. No Brasil, o racismo sofisticou suas agressões ao atingir celebridades e suas famílias, evidenciando outra face negativa de um país já bastante sofrido por uma política sem escrúpulos, empresas sem integridade e, apesar de muitas prisões, uma justiça ainda com muito por fazer. E se o racismo marcou presença como estigma, sua união às redes sociais mostrou-se uma arma letal para destruir reputações e derrubar personalidades diante de posicionamentos preconceituosos.
Pela mesma linha instantânea e fulminante, o assédio moral e sexual atiçou a ira do cyberspace, tirando de cena alguns famosos da TV e do cinema, com suas imagens reduzidas a pó em frações de segundos. Se ainda restava dúvida, as redes sociais não substituirão os veículos tradicionais, pois como os canais por assinatura não inviabilizaram o cinema, e o celular convive em paz com a câmera fotográfica, haverá espaço para todos que enxergarem que o segredo está na linguagem. Mas verdade seja dita: a sociedade em rede veio para testar a consistência, a coerência e a transparência. De todos.

O big data consolidou-se como realidade e mostrou sua eficácia até como suporte em eleições presidenciais. Comprovou-se que vivemos em um inevitável Big Brother.
A cultura startup globalizou-se, e as plataformas eletrônicas de empreendedorismo seduziram a juventude. A economia criativa consolidou-se como oportunidade, enquanto caminhos mais holísticos reorientaram a gestão. A inteligência artificial comprometeu-se em ajudar mais que inspirar a ficção. Em seu quase crepúsculo, 2017 clareia o horizonte para seu sucessor. Resta saber se o saldo de seu desafiador aprendizado será sublimado em experiência, para que se faça dos erros passados degraus para a evolução.

Sidemberg Rodrigues é professor em MBAs de Gestão & Sustentabilidade


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