Apagão de Liderança

Em tempo de necessidade extrema de direção as gestões carecem de bons líderes

O mundo experimenta a ressaca deflagrada pela transição de paradigmas entre os dois últimos séculos. Se as crises de mercado, valores, política, ambiental, social, financeira e, até espiritual, pareciam o pior, a moderna gestão vem provando o gosto amargo da falta de direção, com a escassez de bons líderes. O desconforto causado pelo sumiço do agente inspirador, que aponta caminhos em tempos sombrios, amplificando o potencial humano, tem feito organizações pagarem preço de ouro por um exemplar da espécie.

A pergunta que não quer calar é: “que fenômeno inibiu a boa liderança?”. Assim como os economistas já não explicam a economia, as áreas de RH não têm respostas para o evento que reduziu “líderes” a “chefes”. Os escritórios estão cheios de repetidores de sinais e raros propositores de novas apostas. O medo parece cultura predominante e reproduzir modelos é a tônica dos que preferem imitar a assumir riscos. Se a criatividade passou a ser sinônimo de custo fixo, independente de seu potencial de inovação e revolução, talvez aí esteja uma boa pista: recursos humanos tornaram-se recursos numéricos. Se a área que identifica, desenvolve e ajuda a manter talentos abusou de sua proximidade com a contabilidade, quem sabe um resgate de sua essência não seja capaz de exumar velhas fórmulas que tem a boa liderança como o expoente das equações de sucesso? Não se fala aqui de um erro proposital, mas de um desvio a ser corrigido. Só olhar para os resultados das empresas.

Insistir em modelos de gestão que não priorizam a satisfação individual, a autonomia, a felicidade e a transgressão que ultrapassa obstáculos paradigmáticos, compreende erro fatal. Se a falha vem do topo da organização, troque o comando! Inadmissível manter a antropofagia no nível C, se o que se deseja é a produtividade coletiva e a sustentabilidade do negócio. Explorar para prosperar é algo paleolítico! O ritmo tecnológico acelerado e o foco no capital levaram muitos ao erro. Alguns à falta de ética e à teia da corrupção. Mas não estamos focando legalidade aqui. E sim direção e moralidade! Há um dever de casa: priorizar qualquer coisa preterindo a esfera humana é um atestado de imaturidade do senso moral. Com isso, péssimos resultados. Talvez, a expulsão do mercado por atraso ou falência. Se ainda não ficou claro, o ser humano é o novo paradigma, porque a inovação é a salvação – e máquinas não inovam sem cérebros. E mentes precisam de paz e inspiração! Enquanto a gestão se restringir a “budget”, as “bridges” continuarão desaguando em decepcionantes “ebitdas”. O mundo passa por um apagão de liderança. Em âmbito privado, isso pode ser um péssimo “business”.

Sidemberg Rodrigues é Professor do MBA de Desenvolvimento Sustentável da Fucape Business School

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