Alunos Superdotados precisam de oportunidades diferenciadas

Cláudio de Moura Castro, em entrevista a ES Brasil, destaca a importância de investir em talentos para formação de capital humano do país.

“Os alunos brilhantes de famílias prósperas são identificados e recebem o diferencial de tratamento que se justifica. No caso dos pobres, é como se esses diamantes ficassem perdidos no cascalho e fossem descartados”. 

Economista, professor, pesquisador, colunista e autor de mais de 300 artigos e 35 livros, entre eles “Os Tortuosos Caminhos da Educação”, defende uma nova visão sobre a economia do conhecimento, em que a riqueza mais preciosa está nos cérebros bem lapidados. O especialista esteve em Vitória para participar do evento “Diamante Lapidado”, realizado pelo Instituto Ponte, com objetivo de chamar a atenção à valorização de bons alunos oriundos da rede pública e apresentar o programa Bom Aluno, a ser lançado em julho deste ano no Espírito Santo.

– Nos últimos anos houve um aumento no repasse de verbas federais para a Educação. Mas os índices do chamado analfabetismo funcional, por exemplo, ainda são astronômicos. Esse montante tem sido empregado de forma correta? As melhorias no ensino brasileiro são significativas?

Comparado com outros países, o ensino brasileiro até que avançou bastante, sobretudo na expansão da matrícula em todos os níveis. A qualidade também avançou, mas muito modestamente. Como começamos de um patamar muito baixo, estamos escandalosamente aquém do que se esperaria. O analfabetismo funcional é o pior de todos os problemas, pode ser considerado um barômetro de todos os outros. Hoje, já estão todos na escola. Falta aprender. Infelizmente, cerca da metade dos alunos chega à quarta série sem estar plenamente alfabetizado. Em uma escola decente, isso é assunto para o primeiro ano. A educação básica é municipal e estadual. O MEC (Ministério da Educação) não pode fazer milagres no quintal dos outros. Mas bem que poderia gastar melhor o seu dinheiro. São muitos programinhas, uns interessantes, outros bobocas. Mas não há massa crítica, é tudo meio pulverizado. O foco do MEC deveria sempre estar atrelado aos resultados da avaliação que ele próprio realiza, aliás, bastante bem. Isso começou a ser feito, mas se perdeu no turbilhão dos programinhas.

– No Brasil é comum ver a escola como única responsável pela Educação, Muitos pais, por trabalharem o dia todo, nem sequer participam de reuniões nas escolas para saber o desempenho e as dificuldades dos filhos na escola. Essa ausência de envolvimento é um dos agravantes da falta de qualidade ideal da educação?

O problema com os pais não é de tempo. Os pais chineses, coreanos e japoneses não trabalham menos. O problema é de valorização ou não da escola. O pai não precisa ir à escola, há telefone, há boletins, há o “para casa”. De longe, esse desinteresse é o grande culpado da ruindade do nosso ensino, por duas razões. Em primeiro lugar, porque os filhos ficam desatendidos. Em segundo lugar porque mandam a mensagem para os políticos de que educação não interessa muito. Está mais ou menos bem. Os políticos decodificam essa mensagem e não fazem quase nada.

– O senhor esteve no Espírito Santo para lançar o Programa Bom Aluno que seleciona crianças e adolescentes com inteligência acima da média. Qual a realidade da educação brasileira em relação aos grandes talentos?

Talento no esporte é algo que jamais será desperdiçado no Brasil. Na Educação, os alunos brilhantes de famílias prósperas são identificados e recebem o diferencial de tratamento que se justifica. Entre os pobres, é como se esses diamantes ficassem perdidos no cascalho e acabassem descartados. Na verdade, há mesmo uma ideologia dentre os educadores que ordena manter todos juntos na mesma sala de aula, os surdos que não ouvem nada e os gênios que não se ajustam. Tanto na órbita soviética como no âmago do capitalismo o talento é bateado e recebe tratamento diferenciado. No Brasil é pecado.

– Quantos programas similares existem no Brasil, quais os critérios de seleção?

Podemos falar de quatro mais ou menos grandes: Bom Aluno, Ismart, Escola Embraer e Fundação José Carvalho. Felizmente, estão aparecendo alguns novos e extensões dos existentes, como o Bom Menino no Espírito Santo.

– Que diferenciais são disponibilizados aos alunos nesses programas? 

Ismart e Bom Aluno tem modelos semelhantes. Podemos falar de duas fases. Inicialmente, precisam de um reforço no contra turno, para aprender o currículo convencional, o que tende a não acontecer nas péssimas escolas em que estudam. No Ismart e no Bom Menino, são dois anos para tirar o atraso. Em seguida, são matriculados nas melhores escolas privadas da cidade e acompanhados muito proximamente. Além disso, há detalhes aqui e acolá que diferenciam uns dos outros. Embraer e Fundação José Carvalho são escolas exclusivamente para alunos talentosos de classe baixa. São selecionados por concurso à entrada do Ensino Médio. São escolas ambiciosas e muito bem manejadas. Os resultados são também excepcionais. Mesmo observadores qualificados que conhecem bem os programas não são capazes de dizer ao certo qual o melhor modelo

– Qual o percentual de alunos “bem sucedidos” nesses programas? Casos de pessoas selecionadas que desistiram no meio do caminho?

Dada à adoção de sistemas muito aperfeiçoados de seleção, as perdas são bem pequenas. À proporção que entra em cursos superiores é próxima de 100% dos que terminam o Médio. Os fracassos costumam resultar de conflitos com famílias que não apoiam ou não acreditam no programa. Outra medida de sucesso é a boa aceitação dos alunos pelos colegas mais ricos e suas famílias. Essa é uma constante no Bom Aluno e no Ismart. E também o impacto positivo dos alunos em suas próprias famílias. Ouvi o depoimento de um aluno do Ismart, dizendo que sua mãe havia feito o vestibular por sua influência.

– Se pudesse modificar a Política Nacional de Educação, que eixos estratégicos adotaria?

Em um mundo ideal, começaria jogando no lixo o PNE. Nele, a única coisa que presta são as metas, tomadas emprestadas do Todos pela Educação, que é uma iniciativa privada. O resto é entropia. Aliás, em suas linhas gerais, o ensaio do Mangabeira* é muito melhor, embora não seja propriamente um plano para a Educação. A estratégia de implementação é onde o bicho pega.

*O livro “Paixão: um ensaio sobre a personalidade”, de Roberto Mangabeira Unger, filósofo e teórico social brasileiro, atual ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

*foto: divulgação

A matéria acima é uma republicação da Revista ES Brasil. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.
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