Agricultura: Depois da escassez, a bonança?

Agricultura, agronegócio

Após uma longa seca, 2017 foi o ano em que o agricultor capixaba ensaiou dar a volta por cima

Com o fim da maior seca ocorrida em 80 anos, 2017 pode marcar o início da recuperação da agricultura do Espírito Santo. As chuvas ficaram em torno da média, na maior parte das regiões, e os agricultores se animaram a investir mais na produção. O café conilon (ou robusta), um dos carros-chefes do agronegócio capixaba, foi o que mais sofreu com a estiagem, mas agora o cenário se mostra um pouco melhor, mesmo com o preço da saca em baixa.

Para as exportações do café capixaba, a expectativa é de que o ano não seja positivo. O Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV) estima que seja vendido no mercado externo 1,8 milhão de sacas, a menor quantidade desde 1982, quando o Estado exportou 1,04 milhão de sacas. O motivo da queda é que o conilon capixaba foi praticamente todo absorvido pelo mercado interno e pela indústria de solúvel. Para o arábica, as vendas internacionais foram de um milhão de sacas de janeiro a julho, queda de 28,7% em relação ao 1,45 milhão de sacas exportado no mesmo período de 2016, com receita 7% menor que a do mesmo período de 2016 – ou seja, US$ 13 milhões a menos.

“De forma geral não se gosta de investir em pesquisa no Brasil, mas aqui estamos com o maior edital de pesquisa na agricultura do país. São R$ 14 milhões sendo investidos pelo governo”
Octaciano Neto, secretário de Estado da Agricultura

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que, neste ano, a produção de café no Estado será 8,95% menor do que em 2016. A safra do conilon deve crescer 14%, ao passo que a do arábica cairá 9%. A expectativa é que a produção final seja de quase 8,9 milhões de sacas de café para 2017.

“Se, por um lado, há queda nos preços do robusta, assim como da pimenta-do-reino, que também sofreu com a estiagem, há expectativa de retomada das plantações e dos valores.
Além disso, tanto a cotação baixa quanto a seca motivaram os produtores a investir na qualidade dos produtos. Observamos isso claramente na cultura do café arábica, em que estamos sendo premiados nas disputas nacionais dessa espécie. Nosso grão é de alta qualidade, e os produtores estão em busca de novos cafés, novos aromas”, avalia o diretor técnico do Incaper, Mauro Rossoni Junior.

A seu ver, a seca foi “didática”, a despeito dos revezes que gerou. “Temos novos produtos de qualidade e a entrada no mercado externo. Os concursos de arábica atraem público e geram turismo para a região de montanhas do Estado. É um círculo virtuoso. Temos produtos com preços melhores, aumento do turismo, diversificação das culturas e, claro, uma retomada”, comemora.

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A diversificação das culturas foi o “pulo do gato” deste ano e, mais uma vez, a seca foi a mola propulsora dessa mudança, prossegue Mauro. “Observamos produtores vindo até nós em busca de alternativas à cafeicultura. Daí a alta na produção do tomate, limão tahiti, mexerica ponkan e laranja. O mamão também teve alta nas exportações”, diz.
Além disso, “o gengibre e a horticultura em geral também estão em voga, principalmente quando se fala em orgânicos. Estes produtos estão tomando uma dimensão grande, graças à diversificação. A olericultura, por exemplo, antes forte na região de Santa Maria de Jetibá, Santa Teresa, Itarana e Itaguaçu, agora também se expande no entorno dos lagos em Linhares, Aracruz e Rio Bananal – áreas onde, antes, a pecuária e o conilon eram dominantes, e agora temos culturas misturadas. É a era da diversificação, e isso é muito positivo”, garante o dirigente.

Pesquisa e tecnologia

Hoje, o Estado responde por 75% da produção brasileira e 20% da produção mundial de conilon. São 400 mil empregos diretos e indiretos vindos do cultivo em 60 mil propriedades agrícolas capixabas. E a tecnologia também está sendo usada em favor do homem do campo. Em novembro, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) lançou uma nova cultivar clonal de café conilon tolerante à seca, a “Marilândia ES8143”, e o Jardim Clonal Superadensado, uma técnica para a multiplicação rápida de cultivares clonais melhoradas, ambos desenvolvidos pela equipe do órgão.

O secretário de Estado da Agricultura, Octaciano Neto, destacou a importância desse trabalho. “De forma geral não se gosta de investir em pesquisa no Brasil, mas aqui estamos com o maior edital de pesquisa na agricultura do país. São R$ 14 milhões sendo investidos pelo governo, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação (Fapes). E investir em pesquisa significa dinheiro no bolso do produtor rural”, disse.

Esforço de recuperação

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Espírito Santo (Faes), Julio Rocha, avalia que o ano de 2017 foi muito difícil para a agropecuária capixaba. “Nosso segmento amargou várias dificuldades, como a crise hídrica e os preços recebidos pelos produtores, que quase nunca cobrem os custos de produção nem a alta dos insumos. A forte importação de leite em pó do Uruguai, a falta de uma definição para renegociação de dívidas e a insegurança no campo foram alguns dos pontos que impediram o pleno desenvolvimento do agronegócio capixaba”. Ele explica que o endividamento do produtor preocupa: “Registre-se que a queda dos juros foi pouco aproveitada, em decorrência do endividamento, que compromete as garantias retidas”.

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Com o fim da estiagem, há expectativa de retomada das plantações e dos valores da pimenta-do-reino

Para a safra 2017/2018, os recursos programados para liberação em todo o país são de R$ 188,4 bilhões. Além disso, na tentativa de aliviar o sufoco financeiro do agricultor, o Senado aprovou o Programa de Regularização Tributária Rural, o Refis Rural, que permite a renegociação e quitação de dívidas previdenciárias de produtores rurais e reduz a alíquota paga ao Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural). Serão quitados, segundo o projeto, débitos vencidos até 30 de agosto de 2017.

“Nosso segmento amargou várias dificuldades, como a crise hídrica e os preços recebidos pelos produtores, que quase nunca cobrem os custos de produção nem a alta dos insumos. A forte importação de leite em pó do Uruguai, a falta de uma definição para renegociação de dívidas e a insegurança no campo foram alguns dos pontos que impediram o pleno desenvolvimento do agronegócio capixaba”
Julio Rocha, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Espírito Santo (Faes)

Exportações

Além da queda do café em grão, o terceiro trimestre de 2017 também mostrou baixa nas exportações de café solúvel: -21,7%. E a pimenta-do-reino, que exportou US$ 31,13 milhões no segundo trimestre, caiu -12,6% no terceiro, somando US$ 27,21 milhões. No cômputo final, as exportações do agronegócio capixaba cresceram +5,2% no período, puxadas principalmente pelo aumento de +5,1% nas vendas de celulose, enquanto as exportações do Espírito Santo cresceram +1,86% do segundo para o terceiro trimestre de 2017. A participação do agronegócio nas exportações totais do Estado subiu de 20,3% no segundo trimestre para 21,0% no terceiro trimestre de 2017.


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