Mais que candidatos, a revelação do eleitor

Como o Big Brother, os candidatos se tornam projeções da sociedade

Estamos em temporada eleitoral, os ritos se repetem, em alguns casos as personagens também, registrando-se a “normose”, esse distúrbio mental identificado pelo comportamento coletivo que desconsidera o ato em si, ontologicamente, guiando-se pelo acatamento ao padrão predominante, ao “todo mundo faz assim” ou “isso é normal”. Algo parecido com o espirito de manada, outro mind set que se ainda não foi adotado pelo estudo da psicologia social, não tardará em sê-lo.

Essa atenção com as birutas da sociedade oferece percepções interessantes, estimulantes e até inspiradoras. Como o público do “Big Brother”, um desperdício de tempo intolerável mas que não só engaja a população na eleição dos queridinhos e dos vilões – além de render um astronômico faturamento à Globo com a receita compartilhada da telefonia – como também proporciona uma identificação dos valores do público a partir de suas empatias. Os tipos e seus fãs oferecem um claro retrato do que esse público preza e valoriza no seu exercício televisivo de voyeurismo. Pelos confinados no programa consegue-se apurar o que o país pensa e sente, majoritariamente.

Na cena eleitoral há situações análogas. As correntes dos públicos e seus respectivos preferidos permitem clara identificação de perfis. Há personas que se destacam por suas características até de autenticidade mas não só por isso. Se ocorre a prevalência das figurinhas do establishment, vilões ou virtuosos, há personalidades que oferecem uma possibilidade de leitura mais singular.

O candidato Jair Bolsonaro destaca-se aí. Se ele provoca arrepios às pessoas mais suscetíveis principalmente ao politicamente correto, de outro lado encanta os que identificam na falta de autoridade, na predominância de uma desordem interminável e uma corrupção classicamente impune, problemas muito maiores que os arreganhos de Bolsonaro chutando o pau da barraca da etiqueta político-social. Não que vá fazê-lo, é obvio, embora os simpatizantes não percebam. Mas por se reproduzir a situação do salvador da pátria bem capitalizada pela impostura de Fernando Collor e depois Lula – o operário que chegou ao poder por fadiga de material da representação burguesa. Parece replicado em Ciro Gomes, um Lula letrado, com recursos intelectuais para assentar premissas sobre as quais ergue teses discutíveis.

“A predileção do público identifica os valores que guiam o eleitor”

Mas que parece ter se rendido ao pragmatismo, à aberta barganha fisiológica quando promete, mais que propor, anistiar todos os cadastros negativos do SPC. Mais ostensivamente fisiológico impossível. E quando invectiva os ganhos da banca internacional – reais, extorsivos, sim – mas certamente imunes às bravatas eleitorais.

Bolsonaro é o case a ser estudado. Empresários e mesmo formuladores pejam-se de assumir a simpatia constrangidos pela sua truculência, mas assumem veladamente a empatia que lhes causa o candidato que diz, desbragadamente, o que eles, afinal gostariam de dizer. E o aceno se torna mais ainda irresistível quando promete confiar a formulação da política econômica ao economista Paulo Guedes,” Chicago Boy”, monetarista de cepa, que já antecipa um leque de ações que soam como música aos ouvidos dos empreendedores brasileiros. Não se sabe se, como farsa, a história se repetirá como no caso Collor. Porque resta saber se Bolsonaro banca de fato a agenda de Guedes e se o parlamento rende-se à evidência das necessidades das medidas listadas pelo economista. Se não combinar com os parceiros, o jogo não rola.


Eustáquio Palhares é jornalista, especialista em Comunicação Empresarial

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