A outra gaia

A violência como espasmo  de uma sociedade em desconstrução

Deus perdoa sempre, o homem às vezes, a natureza nunca, dispõe o velho adágio. Estamos  tendo o testemunho disso na atualidade, não bastassem os tantos exemplos de calamidades potencializadas pela depredação ou pela negligência humana, produzindo tragédias de profundos sulcos na memória coletiva.

Sabe-se que o conceito de sustentabilidade chegou  para ficar, não é mais um modismo e passa a ser o balizador de qualquer atividade humana, ante o risco da exaustão dos recursos que julgávamos infinitos. Esse conceito, mais do que impor critérios rígidos de regulamentação da atividade produtiva, irá se desdobrar de modo mais refinado em outras instâncias da vida social, principalmente no consumo, predatório tanto pela voracidade da demanda de insumos e matérias-primas quanto pelo descaso com o descarte e a descarga dos dejetos dele resultante.

Ensaiam-se ainda timidamente procedimentos, no campo da sustentabilidade, de logística reversa, com as fontes produtivas e os elos intermediários responsabilizando-se pelo recolhimento e pela destinação dos restos do consumo. Quando cada pessoa responder efetivamente pela destinação da sobra do seu consumo, certamente ocorrerá uma mudança de comportamento e mesmo de escala do consumo. Hoje tem-se que, se o conjunto dos países consumisse nas mesmas proporções que os EUA, seriam necessários oito planetas Terra para prover tal demanda.

Mas o que pretendo ressaltar é o fato de que a natureza, antes de reagir, ratificando a teoria de Gaia, emite claros sinais dos desajustes que a ação humana desestabilizadora está por desencadear. Depois é colher as consequências. Aí me valho do exemplo da natureza para replicá-lo na sociedade. Evocar uma natureza social que dá claros, ostensivos, sinais de convulsão.

O efeito social do consumo discriminatório, ao qual nem todos têm acesso, mas é emulador, instigador de ações transgressoras;
a reconfiguração – em alguns casos, desbaratamento – familiar com a perda de papéis tradicionais na moldagem dos valores que fazem a higidez do tecido social; a competitividade escorada em um individualismo que leva a pessoa a pensar apenas em sua própria perspectiva, considerando o coletivo uma vaga abstração; a banalização da violência como recurso primário de solução de conflitos e uma roleta russa até democrática na sua natureza indiscriminatória; o, enfim, clima de “salve-se quem puder” estão aí evidenciando quão doente está a sociedade.

As ações extremadas de violência desencadeadas por motivos banais expressam isso de modo cristalino. Os casos que se repetem no noticiário policial apenas ilustram uma tensão social exacerbada que irrompe no contexto de uma permanente intolerância. Quaisquer casos podem ser ilustrativos. Tomemos, pontualmente, aleatoriamente, os eventos estampados pelas manchetes dos jornais, particularmente daqueles que parecem se comprazer com  o mórbido. Para além da individualização da culpa, isso não denota o nível de patogenia da sociedade? Ou o quanto ela mesma, a sociedade, está emitindo sinais de pedidos de socorro?

Eustáquio Palhares é jornalista e especialista em comunicação empresarial

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