A Face Social do Aço

Membro do comitê executivo do grupo ArcelorMittal, CEO da ArcelorMittal Aços Longos América Central e do Sul e presidente da Associação Latino-Americana de Aço (alacero), Jefferson De Paula fala sobre os possíveis caminhos para o desenvolvimento verdadeiramente sustentável.

Low profile nato, Jefferson De Paula é discreto na forma de se colocar e sempre compartilha os méritos das conquistas com os cerca de 15 mil empregados da ArcelorMittal no Brasil.
O executivo vem se destacando no meio empresarial por seu envolvimento com causas sociais e as compreende como parte indissociável dos negócios. No último dia 23 de setembro, ele recebeu, durante o evento que comemorou os 50 anos da Associação dos Magistrados do Estado do Espírito Santo (Amages), a medalha de Mérito da Magistratura, a mais importante distinção do Judiciário. Capaz de sensibilizar-se com a visita ao programa de ressocialização de
egressos em um presídio em Minas Gerais, De Paula prova que
o aço pode ter, sim, uma face social.

O mundo consome 1,5 bilhão de toneladas de aço, e a capacidade brasileira é de cerca de 50 milhões. Daquilo que a vida moderna demanda de aço, o que é fabricado pela ArcelorMittal?
Para a ArcelorMittal, o aço é o tecido da vida, um produto tão essencial ao nosso cotidiano, que às vezes parece invisível. Do grampo de cabelo às torres de energia eólica, dos eletrodomésticos aos grandes navios, dos projetos de infraestrutura aos pilares da sua casa, dos carros à bicicleta do seu filho, o aço oferece grandes oportunidades para o nosso futuro. No Brasil, a ArcelorMittal acompanha os desafios do desenvolvimento sustentável com soluções inovadoras e ecoeficientes para inúmeras aplicações na construção civil, no agronegócio e nas indústrias de automóveis, eletrodomésticos e geração de energia. Em 2015, nosso volume de vendas atingiu 10 milhões de toneladas, sendo 51,8% delas destinadas ao mercado doméstico e 48,2% ao exterior.

Qual o diferencial do aço feito pela ArcelorMittal e o que esperar de novos produtos?
Além de oferecermos um aço de qualidade diferenciada, temos o melhor e mais diversificado mix de produtos. Em 2015, inauguramos o Centro de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) de Tubarão (ES), a 12ª unidade do Grupo ArcelorMittal no mundo, com investimento previsto de US$ 20 milhões em cinco anos (de 2015 a 2019). O centro atenderá às demandas de produtos planos e longos da América do Sul em: desenvolvimento de produtos e de processos, e atendimento a clientes.

A ArcelorMittal é considerada uma das maiores recicladoras do mundo, cerca de 30% de nosso aço é produzido a partir da sucata, sem perder suas propriedades físicas. Temos plantas onde gases industriais são transformados em energia elétrica em centrais termelétricas, e somos a primeira produtora de aço integrada listada na ONU para comercializar créditos de carbono. O aço tem uma imensa contribuição a dar com relação à sustentabilidade.

O Usibor®, por exemplo, aço boro revestido de alumínio-silício (AlSi) desenvolvido pela ArcelorMittal para estampagem a quente na indústria automotiva, faz parte do conjunto de soluções inovadoras, denominado S-in Motion, que permite às montadoras economizar até 20% do peso do veículo, além de reduzir cerca de 15% nas emissões de CO2 durante a produção e a vida útil do veículo.
A empresa também iniciou a produção do Multibar®, barra de alto valor agregado para as indústrias automotiva e mecânica, que permite otimizar processos e reduzir custos.

O Brasil precisa de boa infraestrutura logística. As metrópoles não têm fluência urbana, e grande parte da população não tem casa. Como o aço pode ajudar na modificação desse quadro?
O desenvolvimento precisa do aço. É fundamental criar possibilidades de escoamento e distribuição à produção, e garantir velocidade, segurança e conforto no deslocamento de pessoas. Pontes e viadutos de aço, soluções para o transporte coletivo, desafogariam os grandes centros urbanos; formas mais ágeis e flexíveis de construção trariam mais conforto à vida das pessoas.
O aço também permite horizontes mais amplos de ousadia arquitetônica, para acompanhar a criatividade humana e as necessidades de praticidade e maior velocidade nas construções.

O aço tem alta reciclabilidade, e sua indústria emprega muitas pessoas. Não estaria aí uma alternativa razoável para o Brasil?
Com certeza. A siderurgia expande possibilidades antes e depois da produção em si, com as indústrias que nos precedem e as que transformam nosso produto depois, materializando sonhos do homem em projetos. Isso chega à arte; cada vez mais artistas criam suas obras utilizando o aço, o que também é feito nas esferas do design e pelas visões arquitetônicas mais arrojadas, segmentos que igualmente empregam pessoas. Também tem toda a parte da distribuição do produto, vendas, entre outros, o que amplia as possibilidades de postos de trabalho. Como brincamos em nossa última campanha publicitária: “sem aço, o mundo ficaria só no papel”. Concluindo, o aço pode ajudar, e em muito, o desenvolvimento do Brasil.

Diante das crescentes pressões internacionais acerca de novas matrizes energéticas, economia circular, baixo carbono e respeito aos direitos humanos, produtos poderão ser boicotados por negligências a esses itens?
Sim. Na Páscoa, algumas marcas de chocolate tiveram seu consumo afetado pela notícia de problemas trabalhistas na cadeia de suprimento do cacau na África, o que impactou nas vendas em outros continentes. Também observamos no Brasil os grandes desafios de empresas que têm problemas com a Justiça. Estamos na era da “economia da reputação”, em que a marca torna-se um ativo ainda mais importante para qualquer empresa. E a sustentabilidade é exigida como valor. Aqueles que não estiverem alinhados com isso poderão ter problemas com a venda de produtos e/ou serviços eventualmente boicotados, perder mercado e mesmo deixar de existir como negócio. O mundo está fartamente conectado, e não existe mais um problema local, que fique fora da consciência mundial. Tudo é exposto rapidamente, o que exige ainda mais foco em transparência, consistência e coerência.

Qual a sua avaliação sobre os desafios de mercado encontrado pelo aço atualmente?
Internamente, o Brasil busca recuperar sua credibilidade e fazer a lição de casa para reduzir o endividamento público e estimular a roda da economia a girar. Mas há problemas estruturais, que continuam a afetar os resultados dos negócios, nos mais diversos setores. Há anos a produção vem sendo onerada pelo chamado custo Brasil e, até hoje, seus principais componentes, como o custo de energia elétrica, a elevada carga tributária, questões de logística e de infraestrutura, a lei trabalhista ultrapassada, entre outros, não foram equacionados. O baixo crescimento da economia dos últimos anos agravou ainda mais a queda de produção e de vendas da indústria de transformação nacional. Globalmente, o excesso de capacidade de produção, sustentada pela China, a preços insustentavelmente baixos, ainda é uma equação a ser solucionada. As fabricantes de aço no Brasil operam hoje com algo em torno de 60% do seu nível de capacidade.

Que tipo de liderança deve ser priorizada para se obter êxito em tempos tão desafiadores?
Por mais que a tecnologia tenha avançado e prometa-se revolucionar pela inovação, o fator diferencial de tudo, até mesmo da competitividade, continua sendo o ser humano. Uma pessoa feliz é mais saudável, segura, produtiva e criativa, além de se relacionar mais harmonicamente com outras. Isso gera um clima organizacional positivo e uma empresa com muito mais possibilidades de evoluir e se sustentar no tempo. O tipo de liderança imprescindível hoje é a que se dá conta disso e consegue inspirar as pessoas a fazer o seu melhor, inclusive na própria vida delas. O líder que compreender a importância da felicidade individual para a excelência coletiva estará assegurando a matéria-prima para o sucesso de qualquer instituição. A autenticidade também será decisiva para uma empresa mais transparente, com menor nível de conflitos e maior assertividade em sua trajetória.

O Brasil atravessou um período muito negativo recentemente, com o poder público sendo corrompido pelo privado e vice-versa. Estamos diante de uma nova consciência no país?
Sim. Hoje o valor que se dá à ética e à transparência está melhorando. E em todas as instituições e na vida das pessoas, penso que a cultura da integridade passou a ter mais importância. Não apenas as questões de legalidade, mas também de moralidade e até mesmo da busca de um sentido maior para a vida, com maiores propósitos. Não apenas o Brasil, apesar de desafios ainda latentes, mas também o mundo está se dando conta de que fazer o certo é o que garante uma vida sustentável, para negócios, instituições e pessoas.

O senhor recebeu a medalha de Mérito da Magistratura, a mais importante distinção do Judiciário, por apoiar alianças entre a ArcelorMittal e esse Poder. Qual sua avaliação sobre os resultados dessa parceria para o aprimoramento social?
A medalha que recebi, estendi aos quase 15 mil empregados da empresa porque são eles que fazem acontecer a diferença. Atuamos na difusão da metodologia da Justiça Restaurativa, que é a meta 8 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em alguns estados onde temos pontos de presença, como o Espírito Santo e o Rio Grande do Sul, e estamos começando em Minas Gerais. Além de incentivar práticas restaurativas de justiça que priorizam a mediação em formas mais dialógicas e colaborativas que punitivas, atuamos com métodos que objetivam a ressocialização daqueles que já se envolveram em algum conflito com a lei e cumprem penas ou medidas socioeducativas (caso de jovens). Estamos começando a ver como podemos ajudar nas audiências de custódia e também na promoção da cidadania nos presídios. Em termos de Poder Judiciário, essas são as principais parcerias. Há ganhos em escala nas alianças com a Justiça, uma vez que o aprimoramento social acontece quando muitas pessoas são beneficiadas a partir da melhoria de performance do próprio sistema.  Aqui, não estamos atuando nas consequências, mas nas causas dos dilemas sociais.

Por que uma empresa deve comprometer-se com a responsabilidade social corporativa?
Porque qualquer forma de negócio somente pode se instalar, operar e se expandir em uma sociedade saudável, com baixos índices de violência, ocorrências epidêmicas e endêmicas sob controle, com educação de qualidade, altos índices de qualificação de mão de obra, boas malhas de modais logísticos e com qualidade de vida em geral em todos os aspectos. Do contrário, o negócio acaba afetado direta ou indiretamente, seja pela dimensão humana – em que os empregados podem adoecer, suas famílias serem atingidas pela violência ou terem um nível de preocupação crônica com seus filhos, etc. –, seja pela dimensão do próprio negócio, com o encarecimento do produto pela deficiência logística, por exemplo.

A ArcelorMittal Brasil foi a primeira empresa a ser convidada pela Transparência Internacional a assinar o Termo de Adesão. Qual o diferencial dessa adesão?
Sem dúvida nenhuma, o diferencial é a atenção dada em todo o Grupo ArcelorMittal à manutenção de uma cultura de integridade, o que não apenas sugere o cumprimento de regras e treinamentos de compliance, mas também a legalidade incondicional e a moralidade em todos os aspectos – o fazer o certo. Significa o cultivo frequente de honestidade, transparência, respeito, dignidade e exemplaridade. Uma empresa deve cuidar do trato humano em todas as suas nuances, combater o assédio moral e sexual, cuidar de sua cadeia de suprimento para que não haja trabalho infantil, escravo ou análogo a escravo; que os fornecedores comunguem dos mesmos ideais de integridade. Uma liderança inspirando governança transparente e ética, com integridade em sua plenitude. Sobretudo, liderar pelo exemplo.

Quanto à preocupação com o meio ambiente, com o social e com a vida, como o grupo se posiciona mundialmente?
Há políticas muito rigorosas e claras no Grupo ArcelorMittal, em todo o mundo, extremamente valorizadas pelo alto comando, desdobradas para os pontos de presença globais da empresa.
Para facilitar, foram criadas as 10 Diretrizes para o Desenvolvimento Sustentável, muito objetivas e claras, alinhadas aos 17 objetivos da ONU. E por esse norte temos uma forma sólida de alcançar a excelência na gestão em todos os aspectos, começando com a priorização da saúde, da segurança e da qualidade de vida (diretriz 1) e terminando com a medida de nossos resultados e o reconhecimento deles pela sociedade (diretriz 10). Temos uma linguagem comum, que considera liderança, desempenho e integridade decisivos para uma governança que integre gestão de pessoas, valores, atividades, processos, riscos, relações, planos de ação e acompanhamento com metas e resultados auferidos, individualmente e no conjunto.

Que motivação pessoal leva um CEO com uma rotina de trabalho exacerbada a se envolver com um projeto social realizado dentro de um presídio?
Não se vive algo sem experimentar sua realidade. Sou conselheiro do programa Minas Pela Paz, que também cuida da ressocialização de egressos prisionais. Faz parte das atribuições conhecer melhor a matéria que tratamos. Fui visitar o funcionamento da metodologia em um presídio, com outros executivos de grandes empresas.
E essa experiência me marcou bastante. Ver as pessoas cumprindo tanto medidas socioeducativas (jovens) quanto penas (adultos) nos lembra que houve um conflito com a lei que pressupõe uma punição. Isso é gerido pelo nosso sistema de Justiça e está certo.
Por outro lado, errar é próprio do ser humano. E todo homem é maior que o seu erro. Esse é, inclusive, o slogan das Apacs (Associação de Proteção e Assistência a Condenados). Mas há de se pensar em uma segunda chance para os que erraram. Pensando como executivo de um Grupo multinacional, nenhum cargo ou rotina podem nos afastar de nossa condição humana e do resgate da raiz emocional de nossa responsabilidade. Resumindo, minha motivação pessoal é contribuir para a construção de uma sociedade melhor.

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